Entrevista: Jessé Souza

O CulpaDoGuto entrevistou Jessé Souza, editor-chefe da Folha de Boa Vista, por e-mail, considerando os mais de 3000km de distância entre a capital de Roraima e a Grande São Paulo. Confira abaixo!

Clique na imagem para ler a entrevista na íntegra.

CG: Há quem diga que jornalista não precisa ser diplomado e, ao mesmo tempo, muitos dizem que o diploma é necessário. Qual a sua opinião no momento?
JS: Ser bom jornalista independe do canudo ou não. Há péssimos profissionais formados que acabam sendo preteridos obviamente nas redações, enquanto os não-diplomados só conseguem um lugar ao sol se mostrarem que realmente são bons ou dentro da média.
Os ruins, diplomados ou não, serão ceifados primeiro no crivo do leitor-telespectador-ouvinte, depois na caneta dos editores. A regra de mercado é óbvia: nenhum patrão da mídia vai deixar em seus quadros de profissionais um jornalista que não lhe dê lucros (ou na visão romântica: que cumpram bem a arte do jornalismo com zelo e responsabilidade), que não tenha leitores-telespectadores-ouvinte, que não alavanque Ibope.

CG: Podemos notar que há cada vez mais jovens nas redações de jornais. Isso também acontece na Folha de Boa Vista? Você acha benéfico?
JS: Os cursos de Comunicação estão jogando no mercado de trabalho cada vez mais um maior número de jornalistas formados, boa parte deles jovens que acham que jornalismo é para ficar famoso e rico.
Alguns deles saem despreparados e com uma visão romântica até demais sobre a profissão, por isso a maioria não consegue ocupar um lugar no mercado. E a culpa não é exclusiva deles, mas das universidades que não estão preparadas para construir uma ponte no fosso que existe entre o mundo acadêmica e a vida prática das redações do jornal.
No entanto, os que conseguem passar nessa peneira têm dado um oxigênio novo às redações, pois eles vêm com a proposta de resgatar o idealismo que o jornalismo tem perdido. E isso é bom, porque o jornalismo mercenário e relapso não pode mais sobreviver ou ganhar mais força.
Na Folha de Boa Vista esta realidade é latente. A atual turma é recém-formada ou ainda está concluindo o curso de jornalismo. São jovens que precisam de amadurecimento, mas que já estão aprendendo a caminhar com as próprias pernas e com nova mentalidade de fazer um bom jornalismo.

CG: Muitos acham que jornalistas devem relatar igualmente os dois lados de um fato. Você concorda? Existe jornalismo imparcial?
JS: Não é que questão de “achar”, é regra básica do jornalismo e o sagrado direito de partes opostas de ocuparem o mesmo espaço. A parcialidade ou imparcialidade do jornalismo não cabe nessa regra básica de privilegiar uns e outros não.
Não existe imparcialidade em qualquer jornal do mundo, porque só o fato de um jornal ir para as ruas ou para o ar significa que houve uma grande edição com olhares de quem acha que é aquilo que o público quer ler ou ouvir.
Jornalismo é um comércio como qualquer outro, só que seu produto é a notícia. E jamais existirá imparcialidade plena quando está em jogo a sobrevivência financeira da empresa. Muitas vezes paga-se para não ser divulgadas certas matérias, em vez de manipular uma matéria que foi ao ar ou saiu impressa. O poder da comunicação também está em não divulgar.
O repórter quando produz uma matéria, embora use todas as técnicas da imparcialidade, já usou seus filtros inerentes à pessoa humana, e isso é parcialidade.
A imparcialidade é uma busca pela verdade, e a verdade absoluta não existe, ou seja, cada um tem sua verdade, sua forma de ver, sua forma de editar o mundo. Cada um de nós, seres humanos, somos editores parciais do mundo.

CG: Em entrevista ao site J7, você disse que uma das situações mais engraçadas e difíceis que enfrentou foi quando fez uma entrevista com uma liderança empresarial por telefone. Ela disse que iria recorrer ao Superior Tribunal Federal e no dia seguinte você descobriu que havia ligado para o número errado e que se tratrava de um trote. Como você checa suas fontes para saber se elas são realmente honestas?
JS: Esse episódio ocorreu na pressa do fechamento e quando celular era raridade e assessorias de comunicação quase não existiam. Hoje há várias formas de checar as informações, entre elas a internet (MSN, por exemplo).
Mas checar sempre será um desafio, porque quem dá entrevista nem sempre poderá ser encontrado depois, seja por telefone ou por meio de outro recurso. E nessa hora é que as assessorias são imprescindíveis.

CG: Nesta mesma entrevista, você relatou um trabalho investigativo com o então repórter-fotográfico Nonato Sousa de como havia descoberto o escândalo da morte dos bebês na maternidade. Como é trabalhar com investigação?
JS: Investigar não é fácil, porque não se aprende isso nos bancos das faculdades nem se consegue essa prática do nada, sem ter experiência. Mas foi um faro de repórter afoito.
A técnica de investigar deve ser muito mais acurada do que a técnica de reportagem, porque na investigação você não vai apenas perguntar, você vai montar um quebra-cabeça e buscar “pistas” onde não existe.

CG: Roraima parece definida por dois aspectos conflitantes: por um lado é um exemplo para o restante do país quando se trata de inclusão e educação indígena. Por outro, o conflito pela disputa das terras e sobre a importância do cultivo do arroz na economia do Estado parece não ter fim. Como você aborda estes temas como editor-chefe do maior jornal do Estado e descendente de índios?
JS: Há regras a serem seguidas, como ouvir as duas partes e dar o mesmo destaque às versões que surgirem. Essa questão de ser índio para tratar questão indígena seria o mesmo que indagar se um homossexual teria isenção para escrever sobre homossexualismo ou um homem tratar do Dia Internacional da Mulher. Preconceito? Talvez.
As pessoas fazem uma confusão infantil sobre minha posição como editor-chefe e com os meus artigos publicados na página de Opinião, onde escrevo muito antes de ser contratado pela Folha.
Como editor-chefe, sigo regras, obedeço ordens e sou responsável por enquadrar o jornal na linha editorial e nas técnicas jornalísticas. Como articulista que emite opinião, lá ponho minhas ideias pessoais, como pessoa física, algumas vezes destoando da posição do jornal, principalmente com relação à questão indígena.
O conflito existe na cabeça das pessoas que não conhecem a estrutura de um jornal ou de mentes que gostam de arquitetar teoria da conspiração. O jornalismo é técnica e regras, e eu obedeço as regras do jogo. Se na página de Opinião esta escrito lá embaixo que as opiniões ali emitidas não refletem necessariamente a posição do jornal, então quer dizer que eu não posso emitir minha opinião pessoal? Ou terei que abdicar dos meus pensamentos e posições, negando minha identidade como cidadão, e adotar para sempre o crachá da Folha e o sotaque do patrão, como fazem muitos por aí?

CG: Como sua herança indígena influencia seus artigos e matérias?
JS: Eu mesmo me julgo “impedido” de produzir qualquer matéria sobre a questão indígena porque não me interessa escrever matérias sobre o assunto.
Mas essa isenção apregoada nos bancos da faculdade não existe em qualquer tipo de matéria, porque cada pessoa quando vai escrever ou produzir algo já está editando, ou seja, escolhendo pontos de vistas, abordagem, omitindo o que ele acha que não é importante e escrevendo o que considera essencial. Isso é edição, que é construída por valores pessoais, pontos de vistas pessoais, cultura, preconceitos ou não.
Um repórter pode omitir informações importantes numa matéria ou não conseguir enxergar outros igualmente importantes porque não teve capacidade de ver, por causa de seu filtro pessoal e íntimo, ou por pura maldade.
Com relação a artigos, a origem indígena influencia tudo. Escrevo com conhecimento de causa e sem problema ou medo de ser contestado e confrontado ou ridicularizado. Escrevo para isso mesmo: para polemizar, para conscientizar, para abrir mentes, para perturbar mentes acostumadas a só ver um ângulo e a filtrar suas visões com preconceitos e racismo. Mas não escrevo com rancor. Escrevo com o coração.

CG: Qual o maior desafio em exercer o jornalismo num lugar como o Estado de Roraima?
JS: A diferença é que Roraima é um Estado pequeno, onde o governo é presente em tudo e a principal e às vezes a única fonte de renda de pessoas, empresas e empreendimentos, entre eles veículos de comunicação.
Então é preciso jogo de cintura, perspicácia, coragem de se indispor (sabendo que se você quiser benefícios e benevolência não os terá no governo) e principalmente uma vigilância profissional constante para que você não cometa erros primários a fim de comprometer sua credibilidade.

CG: Quais as características essenciais para um bom jornalista nos dias de hoje?
JS: Disciplina, muita leitura, conhecimento profundo das forças que movem a engrenagem social e política. E principalmente conhecimento pleno da cidadania e das necessidades básicas da sociedade. Jornal que não pensa em cidadania é qualquer coisa, menos imprensa.

CG: Quais dicas você daria a quem esta adentrando o mundo da comunicação?
JS: Que sejam despidos de inocência intelectual, que tenham visão aguçada para perceber o que os outros seres “normais” não conseguem enxergar e muita determinação para não sucumbir no primeiro obstáculo. E os obstáculos são muitos, como a “síndrome do Barrichello”, se é que vocês me entendem.

Para saber mais:
Folha de Boa Vista
Pajuaru - Um blog sem arrodeio sobre Roraima.
Entrevista para o site Jota7

Agradecimento: Jessé Souza

Culpada: Rejoice Sunshine Strauss

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